domingo, 1 de novembro de 2015

A Moda Discute a Arte




¨Afinal, a arte é só para ser vista?  A moda é só para ser vestida? ¨ Vivianne Westwood –estilista inglesa.


Segundo a estilista inglesa  Vivianne Westwood, a moda atual, a moda do nosso tempo pode ser muito bem encarada como uma arte viva, que tende a captar a força e a harmonia da alma feminina. Ela sempre faz modelos, criações exuberantes porque busca novos caminhos, se insurgindo contra o estilo minimalista e a tendência à simplificação excessiva. Aliás, a Vivienne enxerga esta necessidade, constante, de simplificar como um medo à falta de gosto, um medo ao engajamento. “Nosso tempo é negligente. Consequentemente, nossas roupas são medíocres, óbvias demais”, afirma a estilista inglesa.  

Para Westwood é preciso que a arte seja uma fonte constante de inspiração, porque se há um passado a explorar, o estilista jamais ficará curto de idéias. Retratos, representações femininas dos séculos XVIII e do século XIX estão sempre presentes nas coleções desta inglesa inquieta, ávida colecionadora, assídua frequentadora de museus e galerias de arte. Vivianne afirma que observa as obras de arte com atenção, registra a essência e logo abandona rápido o quadro que a tocou para, em seguida, reinterpretá-lo numa coleção ou numa campanha publicitária da sua etiqueta. De um quadro, ela afirma que só conserva, no final, a idéia geral e o clima.

Numa das suas campanhas publicitárias Westwood utilizou o quadro “Balsa de Medusa” do pintor romântico Théodore Géricault. O fato histórico, o naufrágio contado na tela é utilizado, pela estilista, para provocar uma reflexão sobre o nosso naufrágio contemporâneo, a crise de identidade provocada pela globalização. Quem somos? Para onde vamos? Estas são as perguntas que Vivianne desejou colocar no ar no momento em que o célebre quadro de Gericault  é evocado, como um fato histórico, numa das campanhas da marca de Westwood.

Camisetas-telas, camisetas-quadros também já foram criadas por Vivianne Westwood e hoje estão espalhadas por todo o mundo ocidental e oriental. Quem já não viu uma camiseta com um quadro de Claude Monet ou de Vicent Van Gogh estampado? 

Ao conquistar o gosto da maioria das pessoas (homens, mulheres e crianças), as camisetas-quadros ou camisetas-molduras de célebres telas chegam a ser produzidas em apenas cinco minutos em grandes shoppings centers. É só escolher o quadro, o pintor da sua preferência e aguardar a loja estampar, rapidamente. Estas camisetas, quando foram criadas, eram sinônimo de status. Hoje estão difundidas , industrializadas, mas continuam tendo um público-consumidor garantido.

No Brasil, além das camisetas-molduras de quadros famosos, que podem ser encontradas em muitas lojas, há alguns estilistas que trabalham, com seriedade, a relação de moda e arte. 
O artista plástico e estilista  César Coelho Gomes, sócio-proprietário da etiqueta Swains, especializada em bolsas e sapatos, participou em 1994 da exposição ”A moda vê a arte”, realizada no shopping Center Fashion Mall  na zona sul do Rio de Janeiro. Na ocasião, ele apresentou um sapato inspirado nas telas de Piet Mondrian, que se destacava pelas suas linhas geométricas, com retângulos. Fez tanto sucesso que este sapato tornou-se um clássico, sempre há pedidos, encomendas. Trata-se de um modelo que vende bem o ano todo. Atualmente, além deste modelo, César Coelho também criou sapatilhas, bolsas (inclusive as pequenas, gênero pochette), mochilas, sandálias, etc. A sua fonte permanente de inspiração são os quadros de Mondrian e de Joan Miró. 

O estilista Marco Sabino descobriu a relação da moda com a arte na Europa, na época em que foram lançadas as coleções do relógio descartável Swatch com mostradores que reproduziam quadros de célebres pintores como, por exemplo, Jackson Pollock, um dos grandes nomes do estilo expressionista e da arte abstrata.
Esta coleção da Swatch, lançada no inicio dos anos 80 do século XX inspirou Sabino a criar, no Rio de Janeiro, a exposição Marco Sabino e a arte assinada. Pintores da geração 80 (formada na escola do Parque Lage, bairro do Jardim Botânico) foram convidados a pintar um brinco-argola apenas respeitando o seu gosto pessoal. 
Participaram deste evento os pintores Jorge Barrão, Ricardo Basbaun, Alexandre da Costa (que vem a ser o filho de Milton da Costa), Guilherme Secchin, Claudia Duque, André Costa e Paulo Barreto.  A seguir, Marco Sabino reuniu outros artistas plásticos (Cicero Cavaleiro e Marilena Serejo) e juntos realizaram uma exposição de acessórios que traduziam uma homenagem aos 100 anos da abolição da escravatura. 
Na década de 90 do século XX, Marco promoveu duas novas exposições. Na primeira, o tema foi as cores de Jamaica e dela participaram os pintores Patricia Bowles, Walter Marques e Mata Augusta Rebouças que deram novas formas plásticas às bijuterias em cores quentes, cores da América Central. A segunda exposição fez uma homenagem aos 500 anos da descoberta da América, traduzida em peças com as cores, formas e a linhas com os ícones norte-americanos, inclusive Marilyn Monroe.  E ainda teve mais uma exposição feita por Marco. Foi a criação de uma coleção de acessórios inspirados na nossa arte primitiva, nos cartões postais e nas pinturas/paisagens que hoje (infelizmente), raramente encontramos pintadas em paredes de bares e botequins cariocas, criações de artistas muitas vezes desconhecidos. Segundo Marco Sabino, no exterior valorizam muito esta relação do estilista com o artista plástico/pintor. Aqui, ainda estamos engatinhando, começando, devagar.

Fã de carteirinha do pintor impressionista Claude Monet, era a estilista Ethel Moura Costa,que criou a etiqueta Bijou -Box. Ethel se inspirou no célebre quadro " Le Jardin de Giverny” para criar um chapéu de palha que ainda hoje faz o maior sucesso na loja Bijou-Box no bairro de Ipanema, Rio de Janeiro. Segundo Ethel este modelo de chapéu de palhinha era o preferido do célebre pintor, que o usava todos os dias. E no quadro em questão, onde o pintor retrata um lanche no jardim de Giverny, o tal chapéu de Monet, que  serviu de fonte de inspiração para a Ethel , se encontra pendurado num pessegueiro.

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