A intuição vem a ser o ato de perceber, discernir, o ato ou capacidade de pressentir. Todo artista tem um lado de oráculo: ele prevê, profetiza ou advinha aspirações, sonhos e desejos humanos. Um exemplo: quando criou as bijuterias, numa época em que as mulheres ainda só usavam jóias, Gabrielle Coco Chanel previu que a mulher da segunda metade do século XX iria valorizar sobretudo a praticidade. Antecipando-se, Chanel criou a bijuteria nos anos 30/40 e declarou: “o que vale é o efeito e não os quilates”. Outro exemplo: ao lançar o New Look (um estilo luxuoso, baseado em ricos tecidos, fartas e amplas saias) o estilista Christian Dior previu que seus contemporâneos ansiavam conviver com as formas sonhadoras, sobretudo porque a realidade era de racionamento, escassez e de pobreza numa Europa destruída pela Segunda Grande Guerra. E o New Look de Dior explodiu feito uma “bomba atômica” com seu estilo requintado, que exibia formas precisas e ultra femininas, num momento em que as mulheres haviam até se esquecido da sua feminilidade e trajavam pesados e sisudos conjuntos que mais pareciam uniformes militares. Dior, com o New Look , captou o inconsciente coletivo da época, e ajudou a reerguer a indústria têxtil francesa. Chanel, ao inventar a bijuteria, antecipou um estilo baseado na praticidade que só ficou consagrado após os anos 60 do século XX. Na história da moda há diversos exemplos de estilistas que são criadores e que usam e abusam de sua intuição para lançar novas formas. Ou seja, eles captam, através da contemplação, da observação, verdades diferentes daquelas que se atinge por meio da razão e do conhecimento analítico. O artista, o criador, caminha no sentido oposto ao famoso pragmatismo voltado à ação imediata, e que é praticado, atualmente, pela maioria das pessoas.
Pragmático: voltado para a ação, para as aplicações práticas. O conhecimento é um instrumento a serviço da ação. O pragmatismo é uma doutrina criada por Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo norte-americano.
Mas quem deseja fazer arte, criar, se comunicar com seus semelhantes através da forma, não pode ser pragmático e muito menos ocupar a cabeça com preconceitos. Uma professora de história da moda no Brasil, curso ministrado numa escola de moda do Rio de Janeiro, pediu aos seus alunos uma proposta de estilo de uma moda nacional, baseada na influência da arte africana e na Umbanda e no Candomblé, religiões trazidas para o Brasil pelos escravos. Uma aluna trouxe dois desenhos razoáveis e viáveis. Até aí, tudo bem. Mas no texto explicativo, que deveria acompanhar o trabalho ela afirmou: “Destaco que estas religiões são praticadas só pelos pobres (..)”.Posteriormente, a professora perguntou à aluna “ de onde havia tirado esse preconceito, que lhe soou como um aviso de segregação social. Será que ela ignorava os inúmeros artistas, estudiosos e políticos nacionais adeptos dessas religiões? E citou alguns dos mais conhecidos: Caetano Veloso, Gilberto Gil (ex-ministro da cultura), Carlinhos Brown, fora os já falecidos Carybé, Jorge Amado, Zélia Gatai e o ex-governador e ex-senador Antonio Carlos Magalhães. E a aluna refletiu ... E aprendeu uma lição importante: um estilista que deseja criar, que deseja fazer arte – leia-se que deseja interpretar novos caminhos da forma – jamais deve ser escravo de idéias preconcebidas e nem pode se fechar num mundo elitista. Para “tocar” as pessoas, para se comunicar com os seus semelhantes, o verdadeiro artista, às vezes, utiliza a intuição, não só para “acessar” seu próprio inconsciente individual, mas também o inconsciente coletivo da espécie humana, povoado por figuras míticas, símbolos e formas, e que é motivo de estudos na psicanálise.
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